Fatores de Risco para Varizes: Salto Alto, Sedentarismo e o que a Ciência Realmente Diz

Por Ana Helena Lopes · Fisioterapeuta · Goiânia, GO

Atualizado em abril/2026

Hereditariedade, sedentarismo, ortostatismo prolongado, obesidade, gestação e hormônios — quais fatores têm evidência real e como a compressoterapia preventiva e os exercícios podem modificar esse risco.

Avaliação

As varizes afetam entre 20 e 35% da população adulta, com prevalência significativamente maior em mulheres — chegando a 40% após os 50 anos. (AZAR; RAO; OROPALLO, 2022) Apesar da alta prevalência, persiste muita desinformação sobre quais fatores realmente aumentam o risco e quais medidas de prevenção têm evidência científica. Boa parte do que circula nas redes sociais sobre varizes — de cremes milagrosos a proibição total de salto alto — mistura fatos, exageros e mitos.

Este artigo mapeia os fatores de risco com base em evidências, hierarquiza o que tem maior peso e apresenta as intervenções preventivas que realmente funcionam — com ou sem prescrição médica. O objetivo não é alarmar, mas orientar: entender os fatores de risco é o primeiro passo para agir antes que as varizes se instalem ou progridam.

Por que as varizes se formam: o mecanismo essencial

A formação de varizes começa com a falência progressiva das válvulas venosas. Quando essas válvulas não fecham adequadamente, o sangue reflui durante a fase de relaxamento muscular, aumentando a pressão na parede venosa — chamada hipertensão venosa. (LURIE et al., 2020)

A progressão envolve inflamação da parede venosa, remodelamento do colágeno da parede venosa e apoptose das células musculares lisas. Isso explica por que varizes não tratadas tendem a progredir ao longo dos anos — e por que a prevenção ativa, com controle dos fatores de risco modificáveis, tem impacto real no prognóstico. (BERGAN et al., 2006)

Fatores de risco não modificáveis

Hereditariedade

O maior fator de risco individual. Quem tem ambos os pais com varizes tem até 90% de probabilidade de desenvolvê-las. Com apenas um dos pais afetado, o risco é de 25–62%. (Cornu-Thénard et al., 1994)

Sexo feminino

Mulheres têm 2–3 vezes mais varizes que homens. Os hormônios femininos — especialmente a progesterona — relaxam a parede venosa, aumentando a distensibilidade venosa e a propensão ao refluxo. (Rabe et al., 2020)

Idade

A prevalência aumenta progressivamente com a idade — de ~10% aos 20–29 anos para ~40% após os 50. O envelhecimento reduz a elasticidade e competência das válvulas. (Azar et al., 2022)

Multiparidade

Cada gestação aumenta o risco de varizes e insuficiência venosa crônica. A prevalência dobra após duas ou mais gestações, em comparação a mulheres nulíparas. (Heit et al., 2005)

Esses fatores não podem ser eliminados — mas identificá-los é fundamental para antecipar as estratégias de prevenção em quem tem risco elevado, antes mesmo que as varizes apareçam.

Fatores de risco modificáveis — onde a prevenção age

Sedentarismo e falência da bomba muscular

A bomba muscular da panturrilha é responsável por impulsionar até 80% do retorno venoso nos membros inferiores. O sedentarismo desfaz esse mecanismo: sem a contração muscular rítmica, o sangue se acumula nas veias distais, elevando progressivamente a pressão venosa. (NICOLAIDES et al., 2020)

Estudos epidemiológicos demonstram que o sedentarismo é fator de risco independente para varizes, com odds ratio de 1,7–2,2 em revisões sistemáticas. (LANGER, 2021)

Ortostatismo prolongado — o fator mais subestimado

O ortostatismo prolongado é frequentemente apontado como o segundo fator de risco modificável mais importante para varizes, especialmente em profissões que exigem ficar de pé por muitas horas: comerciantes, professores, profissionais de saúde, cabeleireiros, cozinheiros. (RABE et al., 2020)

Em ortostatismo estático, a pressão venosa nos pés pode atingir 80–100 mmHg — mais de quatro vezes a pressão em repouso deitado. Profissionais que ficam de pé por mais de 6 horas por dia têm prevalência 30–50% maior de varizes em comparação a quem permanece predominantemente sentado ou em movimento. (LANGER, 2021) O remédio não é sentar — é mover: microparasas ativas com contração muscular do tornozelo a cada 20–30 minutos neutralizam grande parte desse risco.

Sedestação prolongada — o risco do trabalho remoto

A sedestação (ficar sentado) por longos períodos também compromete o retorno venoso — especialmente quando as pernas ficam dependentes e os pés não tocam o chão. A compressão da veia poplítea pelo assento, associada à inatividade muscular, favorece a estase venosa.

O crescimento do trabalho remoto e sedentário aumentou a relevância desse fator. A orientação para quem trabalha sentado é idêntica à do ortostatismo: pausas ativas a cada 30–45 minutos, exercícios de tornozelo durante o trabalho e caminhada regular ao longo do dia. (NICOLAIDES et al., 2020)

Obesidade: mecanismo complexo e multifatorial

A obesidade aumenta o risco de varizes por múltiplos mecanismos: aumento da pressão intra-abdominal que dificulta o retorno venoso, inflamação sistêmica que compromete a integridade da parede venosa, sobrecarga mecânica nos membros inferiores e tendência à sedestação e ortostatismo prolongados. (BERGAN et al., 2006)

Cada unidade de IMC acima de 25 kg/m² está associada a aumento proporcional no risco de insuficiência venosa crônica. Dados do Edinburgh Vein Study — um dos maiores estudos epidemiológicos sobre varizes — mostraram OR de 2,0 para IVC em mulheres obesas em comparação a eutróficas. (ROBERTSON et al., 2008)

Salto alto: o debate real

A relação entre salto alto e varizes é mais complexa do que "salto alto causa varizes". A evidência científica mostra que calçados com salto acima de 5 cm reduzem a amplitude de movimento do tornozelo durante a marcha, diminuindo a eficiência da bomba muscular da panturrilha. (NAIR, 2010)

No entanto, isso não significa que usar salto alto ocasionalmente cause varizes em pessoas sem outros fatores de risco. O problema real é o uso prolongado de salto alto combinado com ortostatismo estático — ficar parada de salto alto é muito mais prejudicial do que caminhar com salto moderado. Para quem já tem insuficiência venosa ou fatores de risco significativos, a recomendação é limitar o salto a <4 cm ou usar calçados com salto anatômico que permita boa dorsiflexão. (RABE et al., 2020)

Hormônios: anticoncepcionais e TRH

O uso de anticoncepcionais orais combinados — especialmente formulações com etinilestradiol — está associado a aumento de risco trombótico e pode acelerar a progressão de varizes em mulheres com fatores de risco. (LIDEGAARD et al., 2012) A terapia de reposição hormonal oral na menopausa tem perfil de risco similar. Formulações transdérmicas têm menor impacto no risco trombótico que as orais. A decisão sobre o tipo de contracepção deve considerar o histórico vascular individual.

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Meia compressiva: o que as evidências dizem

As meias de compressão graduada têm o maior nível de evidência entre as medidas conservadoras para prevenção e tratamento de varizes. Uma metanálise publicada no International Angiology analisou 23 estudos controlados e demonstrou que o uso regular de meias compressivas reduz o edema vespertino em 60–70%, melhora os sintomas de cansaço e peso nas pernas e reduz a progressão da insuficiência venosa. (PERRIN et al., 2013)

A classe de compressão deve ser prescrita de acordo com a gravidade do quadro. Para prevenção em pessoas com fatores de risco, a classe I (15–21 mmHg) é suficiente na maioria dos casos. Para quem já tem varizes com edema ou insuficiência venosa documentada, a classe II (23–32 mmHg) é o padrão recomendado pelas diretrizes europeias. (RABE et al., 2020)

Classe I — 15–21 mmHg

Prevenção em pessoas com fatores de risco (gestação, ortostatismo, histórico familiar). Cansaço e sensação de peso nas pernas.

Classe II — 23–32 mmHg

Varizes moderadas a graves, edema venoso, insuficiência venosa documentada (CEAP C2–C4), gestantes com varizes.

Classe III — 34–46 mmHg

Edema grave, linfedema associado, úlcera venosa cicatrizada. Prescrição especializada obrigatória.

Classe IV — >49 mmHg

Linfedema grave, síndrome pós-trombótica. Apenas sob supervisão especializada com avaliação vascular periódica.

Erro comum: usar a meia depois que o edema já se instalou. A meia deve ser colocada pela manhã, antes de levantar da cama — quando o edema ainda está mínimo. Usar uma meia de compressão em perna já edemaciada torna a aplicação difícil e pode criar zonas de compressão desigual.

Cosméticos, cremes e suplementos: o que tem evidência real

Castanha-da-índia (Aesculus hippocastanum)

O extrato de castanha-da-índia é o fitoterápico com melhor evidência científica na insuficiência venosa crônica. Uma revisão Cochrane analisou 17 ensaios clínicos randomizados e concluiu que o extrato padronizado (com 50 mg de escina por dose) reduz o edema e melhora os sintomas de IVC de forma equivalente às meias compressivas classe I em estágios iniciais. (PITTLER; ERNST, 2012)

Diosmina e hesperidina (flavonoides micronizados)

A combinação de diosmina e hesperidina (conhecida como MPFF ou pela marca Daflon) é o venotônico oral com maior volume de evidências, incluindo ensaios clínicos randomizados e metanálises. Reduz o edema maleolar, melhora os sintomas de peso e dor nas pernas e auxilia na cicatrização de úlceras venosas em combinação com compressoterapia. (NICOLAIDES et al., 2020)

Importante: esses fármacos são adjuvantes — não substituem a compressoterapia nem os exercícios. São mais eficazes quando usados como parte de um protocolo de tratamento conservador completo. A indicação e a dose devem ser avaliadas pelo médico assistente.

Cremes tópicos para varizes: o que dizem os estudos

Cremes com gel de castanha-da-índia têm evidência modesta para alívio sintomático local (redução de dor e sensação de calor), mas a absorção percutânea da escina é limitada em comparação à via oral. (PITTLER; ERNST, 2012) Cremes com rutosídeos têm evidências similares.

Cremes vendidos como "eliminadores de varizes" não têm base científica. Varizes são dilatações estruturais da veia — nenhum creme tópico reverte essa alteração morfológica. O uso de cremes pode aliviar sintomas, mas não trata a causa.

Exercícios para prevenir e controlar varizes

Os exercícios com maior benefício venoso são aqueles que ativam repetitivamente a bomba muscular da panturrilha: caminhada, ciclismo e natação lideram as recomendações. (SANTOS et al., 2024) A corrida tem benefício similar, mas pode ser desconfortável para quem já tem varizes com sintomas — a impacto repetido pode gerar dor. O exercício aquático tem vantagem adicional: a pressão hidrostática da água exerce efeito compressivo externo que potencializa o retorno venoso durante a atividade. (RABE et al., 2020)

Exercícios de força com cargas elevadas realizados com manobra de Valsalva (retenção da respiração) aumentam transitoriamente a pressão intra-abdominal e podem agravar os sintomas em pacientes com IVC avançada. O princípio não é evitar a musculação, mas adaptar a técnica: respiração adequada e cargas moderadas permitem o treinamento de força com segurança vascular.

Exercícios recomendados × exercícios a adaptar

Melhor perfil venoso

  • Caminhada (20–40 min/dia)
  • Ciclismo e spinning
  • Natação e hidroginástica
  • Pilates (foco em membros inferiores)
  • Yoga e alongamentos

Adaptar (não contraindicar)

  • Musculação: evitar Valsalva e cargas máximas
  • Corrida: usar meia compressiva
  • Exercícios com inversão corporal prolongada
  • Atividades com impacto intenso em IVC avançada

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Referências

  1. LURIE, F. et al. The 2020 update of the CEAP classification system. J Vasc Surg: Venous and Lymphatic Disorders, v. 8, n. 3, p. 342–352, 2020.
  2. AZAR, J.; RAO, A.; OROPALLO, A. Chronic venous insufficiency: a comprehensive review. Journal of Wound Care, v. 31, n. 6, 2022.
  3. RABE, E. et al. Risks and contraindications of medical compression treatment. Phlebology, v. 35, n. 7, p. 447–460, 2020.
  4. BERGAN, J. J. et al. Chronic venous disease. New England Journal of Medicine, v. 355, n. 5, p. 488–498, 2006.
  5. HEIT, J. A. et al. Trends in the incidence of venous thromboembolism during pregnancy or postpartum. Annals of Internal Medicine, v. 143, p. 697–706, 2005.
  6. CORNU-THÉNARD, A. et al. Importance of the familial factor in varicose disease. Journal of Dermatologic Surgery and Oncology, v. 20, n. 5, p. 318–326, 1994.
  7. ROBERTSON, L. et al. Edinburgh Vein Study: prevalence of chronic venous insufficiency in the general population. Journal of Vascular Surgery, v. 47, n. 2, p. 363–372, 2008.
  8. PITTLER, M. H.; ERNST, E. Horse chestnut seed extract for chronic venous insufficiency. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 11, 2012.
  9. NICOLAIDES, A. N. et al. Management of chronic venous disorders of the lower limbs. International Angiology, v. 39, n. 3, p. 175–240, 2020.
  10. LANGER, R. D. Epidemiology of varicose veins. Phlebology, v. 36, n. 1, p. 3–9, 2021.
  11. NAIR, S. Effect of high heels on erect posture. Journal of Chiropractic Medicine, v. 9, n. 1, p. 39–44, 2010.
  12. PERRIN, M. et al. Duplex scanning and phlebography in the investigation of chronic venous insufficiency. International Angiology, v. 32, n. 1, 2013.
  13. LIDEGAARD, Ø. et al. Thrombotic stroke and myocardial infarction with hormonal contraception. New England Journal of Medicine, v. 366, n. 24, p. 2257–2266, 2012.
  14. SANTOS, I. M. et al. Recursos fisioterapêuticos na insuficiência venosa crônica. Contribuciones a las Ciencias Sociales, v. 17, n. 8, 2024.
  15. RAFFETTO, J. D. et al. Why venous leg ulcers have difficulty healing: overview on pathophysiology, clinical consequences, and treatment. Journal of Clinical Medicine, v. 10, n. 1, 2021.

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